sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Sorte ou coincidência

Poucas vezes dei por mim a acreditar na sorte; "a sorte somos nós que a fazemos" é um pensamento que me ocorre com frequência.
Coincidências, então, não existem mesmo: tudo tem uma razão de ser.
Sei também que a composição de um grupo de alunos/formandos numa sala de aula/formação resulta, de um modo geral, da conjugação de critérios, alguns dos quais são aleatórios.
Não é a ordem alfabética dos nomes, a proveniência ou sequer a preferência dos alunos/formandos que constitui o factor determinante para que aquele grupo seja constituído por aquelas pessoas e não outras (no liceu, a idade pode ser um factor extra, para não misturar na mesma sala crianças de 10 anos com outras de 14; mas na Faculdade ou nas sessões de formação de advogados estagiários esse critério não é aplicado).
No meio desta certeza sobre a inexistência de sorte ou azar como determinantes da minha vida, dei por mim confrontada com algo que desafia aquela certeza: o que é que, se não a sorte ou coincidência, leva a que, num determinado curso de estágio, o grupo de formação que tenho na sala seja predominantemente participativo, e que num curso seguinte o grupo que me "calhou" seja completamente passivo?
Não é possível saber, à partida, que as pessoas que compõem um grupo de formação vão, em conjunto, agir activa ou passivamente.
Mas o que é um facto é que, tendo já tido cerca de 14 ou 15 grupos de formação a meu cargo, umas vezes me "sai na rifa" um grupo exigente e participativo, e de outras vezes (menos, felizmente) me calha um grupo a quem, no conjunto, mal consigo arrancar uma pergunta.
Se isto resulta da sorte ou é coincidência, não sei, atenta a minha descrença na "sorte".
Mas que fico muito feliz quando me "calha" um grupo interventivo - como sucede com aquele actualmente a meu cargo - isso é um facto.

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Caldos de galinha

Diz o povo que prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
Hoje num determinado forum comentei que não há neste momento um só Código de Processo Civil que cumpra a sua função (pensando, por exemplo, que umas edições têm apenas as disposições relativas ao regime de recursos aplicável aos processos anteriores a Janeiro de 2008 e que outras têm o regime aplicável a processos posteriores a essa data).
Prudentemente, eu não disse aí que não havia um só Código actualizado; não o disse apenas porque ainda não tinha visto o DR do dia, já que eu estava convencida de que a edição que saiu na semana passada estava actualizada.
E não é que acertei em cheio? Precisamente hoje saiu em DR uma (nova) alteração ao regime experimental.
Isto significa que AGORA não há mesmo nenhum CPC actualizado. Vou ter de o dizer aos meus formandos, que ainda agora começaram nestas andanças, muitos dos quais são orgulhosos portadores de edições do CPC acabadas de sair do prelo...
Vou mas é tomando caldos de galinha, antes que chegue o Inverno, porque de "prudência" estou aviada!

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Haja paciência

Tenho de executar um Acordão proferido pelas Varas Criminais do Porto, que julgou procedente o meu pedido de indemnização civil.
Para executar, como sou mandatária e o valor é superior à alçada da Relação, tenho de usar o requerimento executivo electrónico.
Competente para a execução é o tribunal que proferiu a decisão, nos termos da LOFTJ.
Abro o CITIUS, vou às entregas electrónicas, inicio requerimento executivo, clico em apensar a processo existente, e depois vou escolher o tribunal competente.
Porto: juízos criminais, juízos de execução, família e menores... Espera aí, onde é que estão as Varas Criminais?????
Fecho, abro, faço refresh. Nada... Não constam.
Suspiro.
Linha de apoio ao CITIUS: explico o que se passa, tomam nota. Mandam mail com número do incidente.
Uma hora depois telefonam-me: "Não consegue enviar e não vai conseguir."
- Explique lá melhor.
- Por erro, as Varas Criminais do Porto não foram incluídas na lista de tribunais competentes para execuções. Vai ter de mandar em papel...
A senhora que falou comigo foi muito simpática e esclarecedora. Esclareceu que o sistema não me permite praticar através do CITIUS um acto que a lei me impõe que o pratique por essa forma.
Quando é que o MJ vaga o lugar?

"Que saudades que eu tenho do tempo em que para instaurar uma acção executiva era preciso saber Direito" (J.C. Mira)

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Regras

É suposto entrar-se devagar quando se entra num ambiente novo e cujas regras se não conhecem.
Ao entrar carregamos connosco toda a experiência adquirida ao longo da vida, incluindo na vida profissional, e isso pode dar-nos uma falsa segurança, convencidos de que estamos à vontade.
Não nos podemos esquecer de que as regras do "sítio" novo podem ser-nos não apenas desconhecidas mas mesmo estranhas.
O suposto problema reside na circunstância de que, embora nos possam parecer estranhas, são tais regras aquelas que ditam o modo como se regem as relações entre as pessoas que frequentam o tal "sítio", seja ele qual for.
E essa circunstância leva a que um "novato" possa ser olhado de esguelha quando entra sem verificar primeiro as regras da casa.
A Ordem dos Advogados é um desses sítios, novo para quem entra, uma Casa com regras que, para alguns, poderão parecer estranhas. Todavia, são essas regras que asseguram o respeito entre Colegas e com terceiros, que nos permitem balizar o nosso comportamento no exercício do patrocínio.
A falta de observância das regras comportamentais - porque se entrou depressa demais - pode dar origem à prática de ilícitos disciplinares, mas pode acima de tudo e com maior frequência, causar mau estar em quem já estava. Desse mau estar a um malentendido é apenas um pequeno passo.
Dito doutra maneira, e porque nesta profissão a antiguidade é um posto, ao entrar convém descobrir qual é o galho que nos pertence :)

domingo, 12 de Julho de 2009

Mafia Wars não é só um jogo

Entrei para o Facebook há uns meses, vendo-o como mais uma rede social. Adicionei os amigos do costume e mais alguns novos, fiz e recebi convites.
Dentro do Facebook funcionam milhares de aplicações (quizzes para todos os gostos e sem gosto nenhum, envio de sorrisos, beijos, corações, fraldas sujas, flores e tudo o mais que se possa imaginar).
Há pouco mais de um mês recebi um convite de um amigo para me juntar à sua "mafia" no jogo "Mafia Wars", um jogo no qual o objectivo é combater as outras "famílias de mafiosos", supostamente praticando todo o tipo de ilegalidade e violência. Aceitei o convite para o ajudar a fazer crescer a sua "família", mas entretanto viciei-me no jogo.
Sucede, porém, que o Mafia Wars é muito mais do que um jogo.
Para avançar precisamos não apenas de ter muitos amigos - porque só com uma "família" grande conseguimos resistir aos ataques das "famílias" rivais - mas também de armas e outros objectos. Ora, são as trocas entre os membros da família que a tornam mais forte como um todo: as armas, os telemóveis indetectáveis, as cartas chantagistas, os registos de transacções ilegais são itens necessários ao progresso do jogo. Quanto mais eu avançar mais forte fico, portanto mais posso ajudar. Para eu ficar forte os membros mais fortes da família dão-me os itens de que eu necessito, e que normalmente têm em excesso e não podem utilizar.
O egoísmo ou a ganância prejudicam não só o jogador individual mas também a família a que pertence.
Entrei devagarinho, a tentar perceber as regras daqueles que estavam em níveis muito mais avançados e tinham "famílias" gigantescas (a partir de certo nível ter menos de 500 amigos no Mafia Wars é suicídio).
Aprendi que não se espera que eu agradeça quando me mandam um item de que preciso: é suposto eu retribuir ajudando um membro da "família" que seja mais fraco do que eu.
É mal visto roubar as propriedades de outras "mafias" (hipótese que o jogo oferece mas que só é utilizada por quem pertence a grupos pequenos, que ataca e foge em vez de enfrentar uma luta "cara a cara").
Quando alguém de outra "mafia" ataca alguém da nossa "família" a ponto de o deixar na bancarrota, ou se o puser várias vezes na lista dos "procurados"para ser "abatido" é lançado um alerta e todos retaliam, em defesa do membro mais fraco.
O jogo está activo 24 horas por dia: tenho amigos mafiosos virtuais na Austrália, na Ásia, na Europa e no continente americano. De manhã os indonésios estão a despedir-se para ir dormir, e à hora de almoço começam a aparecer os americanos, para umas "lutas" antes de irem trabalhar.
Há pouco tempo um amigo americano postou um desabafo: estamos a jogar em 5 continentes, 24 horas por dia, 7 dias por semana, ajudando-nos uns aos outros, sem olhar a raça, credo, sexo ou o que seja: os líderes dos nossos países deviam era vir jogar este jogo para aprenderem como é possível conviver, entreajudar, defender os fracos e distribuir a riqueza em excesso, em prol do bem comum.
Eu sou suspeita, porque estou viciada no jogo, mas acho que ele tem toda a razão!